Era o prezinho

Eu odiava ir para a escola.

Minha mãe não podia ter feito isso comigo. A pré-escola. Me deixou lá, aos seis anos, naquele lugar cercado de alambrado, com mais um monte de crianças e “tias” que eu nunca vi. Eu chorei muito, mas eu não tinha escolha. E foi a mesma coisa no dia seguinte, e no dia seguinte.

Tinham umas coisas lá que eu acabei gostando. Todas as crianças numa grande mesa, lá na ponta ficavam duas “tias”, elas eram chamadas de “as merendeiras”, Elas enchiam umas canecas de plástico azuis com leite e chocolate, e o primeiro ia passando até chegar ao último, que era eu muitas das vezes, até todos estarem servidos. Daí, a gente ia recebendo um pãozinho macio com manteiga. Hummm. Era uma delícia.

Também tinha o parquinho. E o parquinho eu adorava. Tinha o balanço, o gira-gira, o escorregador, a gaiola, a piscina de areia, e o meu preferido: O JACARÉ.  O jacaré era uma tabua comprida onde cabiam quatro crianças, uma em cada ponta, e duas no meio. A tabua ficava pendurada com canos de ferro, numa estrutura também de ferro, ele balançava com a força que as crianças das pontas faziam ao empurrar a estrutura de ferro com os pés e puxar com as mãos.

Alguns meses passaram e eu já estava adaptado, ainda detestava aquele lugar, mas o parquinho era refugio. E também tinha a minha primeira paixão, a Fernanda.

Ela era tão linda. Eu vivia um encantamento. Eu imaginava ter os poderes do Superman, enquanto a salvava de perigos. Eu sentava ao lado dela na mesa do lanche. Eu não via a hora de sairmos para o parquinho, e poder brincar com a Fernanda no jacaré.

Até que aconteceu uma coisa muito legal: ia rolar uma tal festa junina, nós teríamos de ensaiar para dançar uma tal de quadrilha, e para isso deveríamos formar pares. Na verdade a professora formou os pares, e para ser meu par ela escolheu a Fernanda.

Era tão legal dançar com ela.

Quando chegou o dia da festa, alguma coisa aconteceu, eu não sei o que, por que eu era criança e a mim só cabia obedecer a ordens da “tia”, e eu não dancei com a Fernanda. Nosso par foi desfeito e eu dancei com outra menina.

Nos dias que vieram eu já odiava o lugar. Um dia eu arranquei as cortinas, nas aulas de desenho eu arrancava as pontas dos lápis com os dentes. Assim passou minha raiva.

Depois de um ano eu pensei que tudo iria acabar, por que, de repente passamos a comemorar o fim dos trabalhos, tirar fotos, despedir das “tias”, e eu pensei: acabou.

E foi depois de um período longo e gostoso, que até então eu não fazia o menor juízo de que se tratava de férias, que minha mãe me levou para um lugar ainda mais fechado. Nem eram alambrados, eram muros. Era maior, com mais “tias” e mais crianças, sendo que algumas eram bem maiores do que eu.

Era a primeira série.

Fernando Fortuna

Publicitário, escritor, cineasta, músico. Pois bem, amante das artes e dos movimentos filosóficos da alma. Noite Literal é o meu quintal celestial. É neste espaço que pretendo trocar energias com você.

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