O MAESTRO E O TROMBADINHA

Hoje é o dia dois de março de dois mil e dezoito, hoje é um dos dias mais felizes de minha vida, porque hoje é a apresentação da Berliner Philharmoniker (Orquestra Filarmônica de Berlim), umas das maiores do mundo, hoje eles irão executar as obras de Mozart, eu amo Mozart, e hoje a orquestra será regida pelo mundialmente conhecido maestro, multi-instrumentista, toca tímpano, piano, violino, violão, viola, saxofones, flautas, bateria, e alguns instrumentos que eu nem sei o nome, o brasileiro Jose Francisco Filho, o primeiro negro e latino a reger a orquestra, ele receberá a batuta das mãos do próprio Sir Simon Rattle. É uma noite especial, a Philharmonie está lotada, ingressos esgotados.

Todo resultado deste trabalho, que será apreciado nesta noite, começou já faz um bom tempo, em mil novecentos e oitenta e seis, quando José tinha sete anos de idade, e morava numa favela carioca. Bom, como eu sou um viajante dimensional, posso levar você leitor até aqueles dias, venha comigo, não se afobe, a orquestra vai nos esperar.

É dia dois de março de mil novecentos e oitenta e seis. Sim, é hoje que o José está fazendo sete anos, e é por isso que ele está correndo com o sax no bag, porque ele está atrasado para a aula de sax, ele tem que pegar três ônibus, ele já perdeu o primeiro, hoje é domingo, e os ônibus demoram muito para passar, ele ainda esta na metade da descida do morro, nem liga pros seus vizinhos de comunidade que gritam: “devagar, Zezinho, tu cai, peste.” – Não, ele nem ouve. Começou as aulas no ano passado, nunca se atrasou, é o melhor dos alunos, nunca faltou numa aula, mas hoje sua mãe insistiu em “assar um bolinho”, mãe é mãe, mas olha aí, está atrasado, e lá vem o ônibus. Ele corre ainda mais, para poder chegar ao ponto de parada, então, uma viatura de polícia avista a atitude suspeita de Zezinho correndo com aquela maleta na mão: – “Mão na cabeça, moleque, mão na cabeça, larga essa porra. Onde você roubou isso aqui?”. – “Não roubei não, tio. É meu”. – O ônibus vai embora. – “Não sou seu parente, não, filho da puta. É seu? Então, toca”. – E, para surpresa dos agentes da lei, mesmo assustado, Zezinho dá um pequeno show. Convencidos, os policiais liberam Zezinho. A ação dos policiais não mexeu com ele, essa era sua realidade, e de seus amigos, o que pegou foi chegar já no fim da aula de sax, e no inicio da aula de violino. Daqui em diante ele nunca mais vai se atrasar, e agora, para recompensar esse dia, ele decide aprender a tocar violino também.

De volta para o ano dois mil e dezoito, aqui estamos nós, caro leitor, venha, entre comigo na sala, a orquestra vai começar a tocar, apesar de todos os ingressos esgotados, todos os assentos ocupados, você vê a sala vazia, caro leitor. Você não vê a orquestra, e nem vê o Jose regendo a orquestra, por duas razões: A primeira delas é que a dimensão do espetáculo é apenas minha. E a segunda razão é que, naquele dia, em sua dimensão, caro leitor, Zezinho foi confundido com um trombadinha, e levou um tiro, enquanto corria para o ônibus, e apareceu nas manchetes dos jornais como mais um ladrãozinho eliminado pela ação efetiva do Estado.

Fernando Fortuna

Publicitário, escritor, cineasta, músico. Pois bem, amante das artes e dos movimentos filosóficos da alma. Noite Literal é o meu quintal celestial. É neste espaço que pretendo trocar energias com você.

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