A LOJA

A condição, chamada de progéria, que afeta 1 em cada 4 milhões de pessoas, faz com que a criança tenha aparência de um idoso de 80 anos.

Eu entrei na sala, segurando a mão daquela tia de branco.

Havia outros bebes: uns de colo, e outros engatinhando. A tia me colocou no cantinho junto com as outras de minha idade, entre cinco e seis anos. Éramos três.

Primeiro nós ficamos nos olhando, cada uma impressionada com a outra, e com consigo mesma, depois de estarmos um pouco mais acostumadas, passamos a falar uma com a outra:

– Você nasceu hoje? – perguntou-me a menina. Reparei que ela segurava um livro.

– Não, nasci com zero de idade – respondi.

– E como se chama? Perguntou a outra menina, que segurava um livro igual.

– Ata. – respondi curiosa para saber que livro era aquele. Então, a tia de branco chegou perto de mim, e me deu um livro igual ao das meninas. Um livro de capa cinza, que trazia o titulo em letras garrafais: NOSSOS ANCESTRAIS PRIMITIVOS NO ÍNICIO DO SÉCULO XXI.

Abri o livro assim que peguei nas mãos, havia fotos dos antigos automóveis, dos velhos aviões, os antigos smartphones, as velhas e horrendas urnas funerárias.

– Dá para acreditar que ninguém voava no inicio do século? – comentou a outra menina.

– Qual é a coisa mais antiga que você se lembra, Ata? – continuou a primeira menina.

Uma visita ao dentista em dois mil e dezoito veio nitidamente à minha cabeça. Eu conseguia lembrar os detalhes: a velha cadeira, as cirurgias antiquadas.

Naquele ano eu tinha ido ao dentista para uma visita de rotina, e me foi sugerido fazer um implante dentário. Eu troquei todos os meus dentes gastos por maravilhosos dentes de porcelana. Naquela época eu era um homem de trinta e oito anos de idade, muito vaidoso.

Quando fiz noventa anos, meus dentes eram lindos e brancos, meu coração era jovem, e eu era mais jovem do que na época em que fiz o implante de dentes de porcelana. Mas, meu cérebro já cobrava o peso da idade.

Aos noventa e seis anos fui sentenciado à morte. A doença mais antiga da raça humana me rondava. Então, fui até a loja, porque eu fazia parte de uma classe onde poucos podiam vencer a doença.

O vendedor me apresentou a tecnologia mais recente daquele momento, e naquele final de século XXl as tecnologias brotavam entre os milésimos de segundos. Eu fui atrás de massa encefálica, mas o vendedor me disse: “Já pensou em trocar de corpo? Eu tenho aqui ótimas experiências. Tenho aqui corpos de zero até dezoito anos, mas tenho alguns lá no fundo com trinta anos, já que algumas pessoas tem esse fetiche. E todos os corpos em modelos masculinos e femininos. O que acha de voltar a ser criança?” – e me apontou um corpo de bebe.

Com este gesto ele me levou de volta para o inicio do século, quando implantei os dentes de porcelana, respondendo aos gritos de minha vaidade. Agora me grita o sonho intimo de reviver a infância. Foi essa a história que compartilhei com minhas novas amiguinhas:

– Então, escolhi o corpo recém-nascido de uma menina. – concluí.

– Ser menina. Isso está muito na moda. É o que todo mundo quer ser afinal. – comentou uma delas.

– Dá para acreditar que as pessoas morriam? – completou a outra menina.

Fernando Fortuna

Publicitário, escritor, cineasta, músico. Pois bem, amante das artes e dos movimentos filosóficos da alma. Noite Literal é o meu quintal celestial. É neste espaço que pretendo trocar energias com você.

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1 comentário

  1. Eu adoraria trocar de corpo.

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